O Cartão de Crédito
Em 2001 eu tinha viajado ao Rio de Janeiro para gravar um novo CD. Desta vez fiquei na casa do meu amigo irmão Pierre Aderne, que estava com uma gravadora que se chamava Panela Music, embora isso nada tenha com a historia, é só um comercial de graça pelo serviço de graça que ele fez pra mim também. Um belo dia eu ligo para o banco para fazer uma transferência de dinheiro para uma pessoa, que nem me lembro mais o nome. Após uns vinte minutos ao telefone e já concretizada minha solicitação, a moça da linha perguntou se eu poderia ceder 5 minutinhos do meu precioso tempo. Falei que sim, ela falou um momento Senhor E passou para um outro departamento, que era uma administradora de cartões de credito. A vendedora perguntou se eu me interessava por uma cartão de credito. Eu falei que não. Ela perguntou porque e eu falei que nem eu tinha credito aprovado em lugar nenhum, e nem eu gostava de cartões de credito. Ela começou a insistir, falando que era muito bom, que eu tinha já um cadastro aprovado, que numa viagem seria ótimo, etc. eu falei que não, e que nem estava na minha cidade, estava no Rio de Janeiro. E ela falou, não há nenhum problema, nos enviamos para o local que o senhor esta hospedado em dois dias. E continuou, o senhor vai passar quantos dias no Rio? Eu respondi que uns trinta dias, pois estava gravando um CD. Ela perguntou, o senhor é musico? Sim, respondi e continuando a resposta, e como à senhora vê sou um artista desconhecido e não vou ter garantias para esse cartão. Mas a moça estava decidida a me forçar a aceitar esse cartão. E depois de uns trinta minutinhos a mais, eu falei; olha, vou ser sincero não quero, e ela insistiu mais uma vez, foi quando eu falei, ta bom, eu vou aceitar, mas vou gastar e não vou pagar a fatura. Ela riu, e perguntou meu endereço no rio, eu dei com todo prazer.
Três dias depois, não mais de três dias, o cartão chega ao destino. Eu tinha até dado o endereço do estúdio, pois eu passava a maior parte do tempo lá mesmo. Quando vou entrando a secretaria do Pierre me chama e fala que tinha chegado uma correspondência para mim. Eu nem me lembrava mais o que era, e ela me entregou um envelope, por fora parecia ser algo insignificante, apenas um plástico branco, com um remetente que eu não tava conseguindo ligar a placa à carroceria, mas eu abri e fui me dirigindo à sala de gravação. Lá eu abri o envelope e …. Que surpresa, era uma coisa muito linda, um livrinho que explicava vários números de telefones caso eu precisasse, para perda, roubo, no Brasil no exterior, e quando vou abrindo mais coisas, lá esta ele, o cartão, lindo, plus, 24 HORAS, internacional, era a coisa mais linda que eu já tinha recebido de presente. Nesse dia nem gravei, sentei e fiquei lendo tudo que tinha de vantagens. E tinha uma orientação para assinar logo no local indicado, por segurança, pois se perdesse algum poderia assinar. Eu não tive duvida, pedi uma caneta ao Pierre, que tinha uma daquelas canetas caras e assinei no local indicado. A emoção era tão grande que a tinta nem queria sair. Pode prestar atenção, sempre que vamos assinar um cartão de crédito a caneta falha, o local é minúsculo, mas assinei lá no local indicado. E me sentiu com poder, especial, plus, máster, ouro e internacional.
À noite saímos para jantar num desses restaurantes bons de Ipanema, e jantar com Pierre naquela épocas era sinônimo de mordomia, ele sempre pagava, e eu falei, Pi, essa conta eu pago, ele ficou surpreso e eu falei, essa é minha. E perguntei ao garçom se aceitava cartão, embora eu já tivesse lido numa plaqueta em cima da mesa que sim. Mas, eu queria ouvir do garçom. E mandei ver.
Pela manha acordei e antes de ir ao estúdio fui para o shopping, eu desfilava pelos corredores, as vitrines ficavam chamando meu cartão, compre aqui, e outra do outro lado, aqui Ju Medeiros, o cartão começava e ficar irrequieto e a pular no meu bolso, eu num gesto de solidariedade com ele, entrei na loja e tome a comprar. Comprava o que não precisava com um dinheiro que não tinha. E falei pra mim mesmo que pararia quando o limite dissesse STOP. Mas parece que cartão novo nem tem limite, pois demorava a falar STOP.
Na oportunidade fui a São Paulo, e na famosa Rua Sampaio, se não me falha a memória, a rua dos músicos, onde existem quase todas as lojas de instrumentos musicais de Sampa. Entrei numa loja e pergunte se tinha uma guitarra, e dei as coordenadas para o vendedor, ele me trouxe uma coisa linda, uma guitarra com um modelo bem antigo, mas era um lançamento. Era uma estratégia da fabrica, ré lançar alguns pedais e guitarras dos anos 60, com a tecnologia atual. Perguntei ao vendedor quanto custava, e ele falou o valor e que dividiria em seis vezes no cartão. Não tive duvida, sem pensar meia vez falei para ele, pega aí o cartão, se passara eu levo. Não só levei a guitarra mas também um estojo para a mesma.
Em uma outra loja fui pagar uma coisa e não foi mais aceito o cartão, falou, e eu perguntei com aquela cara de espanto, - Como assim? E a vendedora falou que tinha esgotado o credito. Que absurdo eu falei.
Poucos dias depois da data de vencimento, eu já na minha residência oficial, chega à fatura. Eu até pensei teria condições para pagar mesmo, mas por ironia do destino eu estava liso, de maneira que se jogasse um gato no meu peito, ele caía escorregando de tão liso. E não paguei a fatura na data que era para pagar. Três dias depois um telefonema.
Senhor Fulano de Tal? Eu falei sim. – aqui é da administradora do cartão de crédito falou a voz salgada e crua do outro lado. Já não era mais aquela voz doce e paciente que eu conversei no Rio de Janeiro. – Estamos ligando para avisar ao senhor que a sua fatura até o presente momento não foi pago senhor. Eu respondi na maior cara de pau, - claro, eu sei, ou a senhora pensa que eu não estou a par das minhas responsabilidades? – Sim senhor, eu sei, só estou telefonando para ver se ouve algo de errado, é claro que nós temos a maior confiança nos nossos clientes, sabemos que são pessoas de índole e muito especial para nós. – ah sim, respondi. E em o que eu poso ajuda la senhora? Gostaríamos de saber quando o senhor vai efetuar o pagamento e avisar que nos dispomos de uma condição especial de pagamentos mínimo, caso o senhor esteja passando por algum problema momentâneo. Eu falei, não estou passando por nenhum problema momentâneo senhora, (em entendo, ia começas ela a falar) e eu continuando, - como ia falando não estou passando por nenhum problema financeiro momentâneo, sou o próprio problema financeiro senhora, eu não tenho dinheiro para pagar essa fatura nem tão cedo. E por gentileza quero falar com a pessoa que me deu esse cartão quando eu estava no Rio de Janeiro. Senhor, fala a funcionaria, nos somos do departamento de cobrança, o departamento de capitação de clientes é outro. Mas eu estava querendo irritar a funcionaria, e me fazia de bobo. – mas nós conversamos tanto no Rio de Janeiro, façamos muito amigos, ela foi tão simpática, tão atraente, inteligente, meiga, chega ser até linda sem eu mesmo poder vê la. A funcionaria foi se irritando e continuou a falar que se eu não pagasse ia correr juros, etc. e eu concluí o papo falando que a partir de agora só falava com minha amiga do Rio de Janeiro. Ela desligou o telefone.
Depois de 45 dias me liga uma pessoa com o seguinte texto: - Boa tarde, é da residência do senhor fulano de tal e tal. O cara falou meu nome inteirinho, a ultima vez que ouvi meu nome assim foi há mais de 30 anos, minha mão me acordando para ir para o colégio. É sim, prossiga. Aqui é do escritório de advocacia Gustavo Cortes & irmãos Ltda. Que esta falando é o Fred. E eu falei, pois não, de que se trata? Gostaria de saber quando o senhor vai pagar a fatura do cartão credito que já esta em atraso a mais de 40 dias senhor. Quem esta falando? Perguntei novamente, e o advogado já meio que irritado respondeu, é o advogado Fred Moreira da Silva, e eu falei você nem é o diretor desse escritório, pois se fosse seria Fred Cortes, você deve ser estagiário né? Aí o cara pegou ar e começou um discurso assim, o senhor vai ou não vai pagar? Porque se o senhor não pagar eu vou mandar prender o senhor. Nesse momento eu já saquei que não era um advogado experiente, pois não falaria umas besteiras desse jeito e aproveitei e disse; tu prendes pôrra nenhuma seu advogado de merda. E ele já lotado de raiva ainda falou; pois eu vou aí onde o senhor esta. E eu falei, e tu tens dinheiro pra vir aqui pôrra, só à passagem é teu salário, e tu ainda vai ter que pagar a taxa de permanência que são 21 reais por dia e ainda conseguir uma pousada. Ele nem sabia que eu resido em Fernando de Noronha. E pra que você não pense que eu sou otário, fique sabendo que; tenho profissão definida, endereço residencial fixo, e nenhum vai preso por divida no Brasil, a não ser pensão familiar ou deposito judiciário, seu otário! Desliguei o telefone.